A história é passável. Nada extraordinário ou complicado. Desde o começo você sabe o que vai acontecer. Dizer que há mistério e suspense (como vi dizerem por aí pela internet), seria tolice, pois a história gira em torno da culpa e de escolhas morais, não de algum caso a ser resolvido. Isso, na verdade, teria potencial para me fazer gostar do livro, mas não foi o que aconteceu. Por quê?
Bom, o livro é cheio de estereótipos de gênero batidos, constituindo-se em um amontoado impresso de desfavores à igualdade. Há mulheres que não se importam em fazer comentários sexistas porque “há coisas piores nessa vida do que ser sexista”; também tem personagens femininas que só se sentem felizes consigo mesmas após terem sua aparência aprovada por homens; e, acima de tudo, há por toda a narrativa a disseminação de uma forma horrível de se tratar mulheres gordas. Ou seja: há sexismo espalhado disfarçadamente pela maioria das páginas. ⠀
Aparentemente, a autora tenta minimizar o machismo latente do livro. Ela mostra, por exemplo, uma menininha de seis anos que quer uma festa de piratas (tema geralmente tido como masculino) e faz a mãe dessa garotinha se preocupar com “positive body image”; essas tentativas, no entanto, parecem efêmeras, quando levamos em conta a quantidade e força das mensagens subliminarmente machistas que povoam a história. Principalmente no que se refere à gordofobia (um assunto muito pertinente ao feminismo, diga-se de passagem). ⠀
A melhor amiga e prima de uma das personagens principais era obesa e perdeu quarenta quilos. A forma como essa personagem – Felicity – é descrita quando pesava mais quase chegou a partir meu coração. Ela foi chamada pela narradora de bebê de elefante e foi descrita como “uma mulher bela presa em um corpo gordo”. Foi preciso Felicity perder 40 quilos e ser desejada pelos homens para sentir-se bonita e encontrar a felicidade e o amor; antes disso, ela vivia à sombra do relacionamento de sua melhor amiga, como espectadora privilegiada de uma vida que não poderia ter, devido à sua gordura. 
Sim, mulheres gordas são tratadas de forma terrível em nossa sociedade. Isso não justifica, todavia, a forma como a autora escolheu retratar Felicity. Uma coisa é mostrar em uma obra de ficção como a sociedade é; outra completamente distinta é incorporar preconceitos a uma narrativa. Infelizmente, tenho a impressão de que Liane Moriarty acabou por trilhar o segundo caminho. 

2 Comentários

  1. Amei a sua resenha, você escreve muito bem e sabe dá seu ponto de vista sobre a história. Parabéns pelo blog.
    missliterary.blogspot.com.br

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    1. Obrigada! O blog tem ainda muito a crescer e eu, muito a melhorar! :p Agradeço de coração seu apoio! :) :*

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