Eis aqui mais um livro que trata das mulheres negras dos Estados Unidos. A história se passa na década de 1930 e tem como protagonista a Celie, uma personagem que é submissa, passiva e sofre abusos (sexuais e psicológicos) primeiro de seu pai e depois de seu esposo. Celie decide escrever cartas para Deus, para poder falar sobre as tristezas que passa na vida.
Aos 14 anos ela engravida do homem que acredita ser seu pai. Após o nascimento, o bebê é tirando de sua mãe, e ela só descobre seu paradeiro anos mais tarde. Ainda adolescente, Celie é obrigada a se casar com um homem mais velho e seu marido reproduz os abusos que eram provocados pela figura paterna da garota. Além de ser vítima de violência sexual, física e psicológica, a moça sente-se sozinha, pois sua única irmã é expulsa de casa e acaba partindo para a África, a fim de trabalhar como missionária. Embora fossem muito próximas, elas perdem contato, pois o marido de Celie esconde todas as cartas de sua irmã, o que faz com que a protagonista passe a acreditar na morte de sua parente.
Em meio a tantas dificuldades Celie conhece Shug, uma mulher sexualmente livre, que desafia os valores do patriarcado e mostra a Celie outras formas de viver e amar. Assim, acompanhamos o processo de libertação da personagem principal, a qual vai tomando as rédeas de seu destino e passando, também, a desafiar a realidade machista que a cerca. Isso ocorre mais para o fim do livro e tal libertação é salientada metaforicamente pelo fato de Celie passar a costurar, usar e vender calças, uma peça de roupa ligada (ao menos naquela época) ao universo masculino.
Outras personagens femininas fortes fazem-se presentes nessa obra. É o caso de Sofia, a esposa do enteado de Celie, a qual não admite, por exemplo, ser violentada por seu marido. Além disso, é relevante observamos que, no início da história, Celie alimentava ódio contra os homens, devido ao que eles a obrigaram a sofrer. No entanto, ao final do livro, ela faz as pazes com seu esposo, chegando até a ter uma relação de amizade com ele, e relativiza o ódio que sentiu no passado. Ele, por sua vez, compreende o quanto a fez penar.
Como vários livros que demonstram a realidade de indivíduos pertencentes a grupos sociais explorados, A Cor Púrpura é cheio de momentos tristes. À medida em que a personagem principal vai aprendendo a lutar contra a dominância masculina, no entanto, as coisas vão melhorando, até chegarem a um final feliz. A verdade é que grande parte das mulheres negras que viveram nessa época jamais encontraram liberdade dentro do sistema patriarcal, ou finais felizes para suas histórias. Apesar disso, é bom ler um happy ending e ter suas esperanças na humanidade reafirmadas (mesmo que ilusoriamente :p)








