A história é passável. Nada extraordinário ou complicado. Desde o começo você sabe o que vai acontecer. Dizer que há mistério e suspense (como vi dizerem por aí pela internet), seria tolice, pois a história gira em torno da culpa e de escolhas morais, não de algum caso a ser resolvido. Isso, na verdade, teria potencial para me fazer gostar do livro, mas não foi o que aconteceu. Por quê?
Bom, o livro é cheio de estereótipos de gênero batidos, constituindo-se em um amontoado impresso de desfavores à igualdade. Há mulheres que não se importam em fazer comentários sexistas porque “há coisas piores nessa vida do que ser sexista”; também tem personagens femininas que só se sentem felizes consigo mesmas após terem sua aparência aprovada por homens; e, acima de tudo, há por toda a narrativa a disseminação de uma forma horrível de se tratar mulheres gordas. Ou seja: há sexismo espalhado disfarçadamente pela maioria das páginas. ⠀
Aparentemente, a autora tenta minimizar o machismo latente do livro. Ela mostra, por exemplo, uma menininha de seis anos que quer uma festa de piratas (tema geralmente tido como masculino) e faz a mãe dessa garotinha se preocupar com “positive body image”; essas tentativas, no entanto, parecem efêmeras, quando levamos em conta a quantidade e força das mensagens subliminarmente machistas que povoam a história. Principalmente no que se refere à gordofobia (um assunto muito pertinente ao feminismo, diga-se de passagem). ⠀
A melhor amiga e prima de uma das personagens principais era obesa e perdeu quarenta quilos. A forma como essa personagem – Felicity – é descrita quando pesava mais quase chegou a partir meu coração. Ela foi chamada pela narradora de bebê de elefante e foi descrita como “uma mulher bela presa em um corpo gordo”. Foi preciso Felicity perder 40 quilos e ser desejada pelos homens para sentir-se bonita e encontrar a felicidade e o amor; antes disso, ela vivia à sombra do relacionamento de sua melhor amiga, como espectadora privilegiada de uma vida que não poderia ter, devido à sua gordura. 
Sim, mulheres gordas são tratadas de forma terrível em nossa sociedade. Isso não justifica, todavia, a forma como a autora escolheu retratar Felicity. Uma coisa é mostrar em uma obra de ficção como a sociedade é; outra completamente distinta é incorporar preconceitos a uma narrativa. Infelizmente, tenho a impressão de que Liane Moriarty acabou por trilhar o segundo caminho. 



Eis aqui mais um livro que trata das mulheres negras dos Estados Unidos. A história se passa na década de 1930 e tem como protagonista a Celie, uma personagem que é submissa, passiva e sofre abusos (sexuais e psicológicos) primeiro de seu pai e depois de seu esposo. Celie decide escrever cartas para Deus, para poder falar sobre as tristezas que passa na vida.
Aos 14 anos ela engravida do homem que acredita ser seu pai. Após o nascimento, o bebê é tirando de sua mãe, e ela só descobre seu paradeiro anos mais tarde. Ainda adolescente, Celie é obrigada a se casar com um homem mais velho e seu marido reproduz os abusos que eram provocados pela figura paterna da garota. Além de ser vítima de violência sexual, física e psicológica, a moça sente-se sozinha, pois sua única irmã é expulsa de casa e acaba partindo para a África, a fim de trabalhar como missionária. Embora fossem muito próximas, elas perdem contato, pois o marido de Celie esconde todas as cartas de sua irmã, o que faz com que a protagonista passe a acreditar na morte de sua parente. 
Em meio a tantas dificuldades Celie conhece Shug, uma mulher sexualmente livre, que desafia os valores do patriarcado e mostra a Celie outras formas de viver e amar. Assim, acompanhamos o processo de libertação da personagem principal, a qual vai tomando as rédeas de seu destino e passando, também, a desafiar a realidade machista que a cerca. Isso ocorre mais para o fim do livro e tal libertação é salientada metaforicamente pelo fato de Celie passar a costurar, usar e vender calças, uma peça de roupa ligada (ao menos naquela época) ao universo masculino. 
Outras personagens femininas fortes fazem-se presentes nessa obra. É o caso de Sofia, a esposa do enteado de Celie, a qual não admite, por exemplo, ser violentada por seu marido. Além disso, é relevante observamos que, no início da história, Celie alimentava ódio contra os homens, devido ao que eles a obrigaram a sofrer. No entanto, ao final do livro, ela faz as pazes com seu esposo, chegando até a ter uma relação de amizade com ele, e relativiza o ódio que sentiu no passado. Ele, por sua vez, compreende o quanto a fez penar. 
Como vários livros que demonstram a realidade de indivíduos pertencentes a grupos sociais explorados, A Cor Púrpura é cheio de momentos tristes. À medida em que a personagem principal vai aprendendo a lutar contra a dominância masculina, no entanto, as coisas vão melhorando, até chegarem a um final feliz. A verdade é que grande parte das mulheres negras que viveram nessa época jamais encontraram liberdade dentro do sistema patriarcal, ou finais felizes para suas histórias. Apesar disso, é bom ler um happy ending e ter suas esperanças na humanidade reafirmadas (mesmo que ilusoriamente :p)



Acabei a leitura de #TheBluestEye, da autoria de #ToniMorrison. Que livro, gente! Que livro. Uau. Assim que terminei de lê-lo pensei: preciso compartilhar com o mundo! Então, vim correndo escrever uma resenha. 😁 Vamos lá?
Através dessa obra – ao meu ver, fantástica – conhecemos Pecola, uma menina negra de 11 anos que vive nos Estados Unidos durante a década de 1940. Seu maior sonho é ter os olhos azuis, para, assim, deixar de ser feia. Preciso de uma pausa para enxugar os olhos. Só o resumo do enredo já me dá vontade de chorar.
Por meio da historia de vários personagens, acompanhamos não somente a vida de Pecola Breedlove, mas também as das norte-americanas negras da década de 40. Vemos como seus destinos eram pesadamente influenciados pela supremacia branca e pelo patriarcado, os quais obrigavam-nas a serem subservientes a quase todo o mundo e a se verem de acordo com os padrões caucasianos de beleza. 
Nessa realidade extremamente preconceituosa e machista, a única coisa pior do que ser uma mulher negra era ser… uma menina negra. Pobre Pecola, calhou de ser justamente o elo mais fraco da corrente social. Devido à essa vulnerabilidade, a menina é abusada sexualmente por seu pai e acaba engravidando. E mesmo assim, tudo que ela deseja é ter olhos azuis…
Escrito de uma maneira engenhosa e expondo até por meio dos capítulos dedicados aos personagens masculinos as mazelas às quais as mulheres negras eram expostas, esse livro me fez chorar várias vezes, devido aos sofrimentos – ficcionais mas, mesmo assim, muito reais – que a pobre menina negra e feiosa foi obrigada a suportar. É interessante observar que essa obra é tida como pertence ao gênero Young Adult, no entanto, é uma leitura repleta de temas sérios e tristes.


The DUFF conta a história de Bianca, uma moça inteligente e um pouco ranzinza que tem duas melhores amigas muito bonitas. Durante uma festa, Bianca é chamada de “Designated Ugly Fat Friend” por um bonitão da escola que estava querendo se aproximar das amigas de Bianca, o Weasley. Além de ter magoado a menina com esse rótulo ofensivo e da fama de “male whore” que o boa pinta possui – e que Bianca desaprova -ambos acabam se envolvendo sexualmente. A história gira, então, em torno dos problemas enfrentados por Bianca em casa (mãe ausente, pai alcoólatra, divórcio), seus encontros sexuais com Weasley (os quais propiciam uma fuga da realidade) e sua relação com as amigas. E o que há de feminista em tudo isso?
Bom, primeiramente, achei interessante o fato de o livro passar a mensagem de que devemos aceitar quem somos. Todos nós somos suscetíveis a inseguranças e o título de DUFF pode acabar sendo imposto a muitos de nós, mas não devemos deixar nosso amor-próprio ser atingido pela opinião de pessoas malvadas. Ou seja, há uma mensagem positiva referente a “body image”. Também gostei do fato de haver uma reprovação do “slut shame”. Nesse sentido, ao fim do livro, Bianca percebe não ser justo ou certo julgar as pessoas pela quantidade de gente com quem elas fizeram sexo. Acho muito construtiva a presença desses temas em um livro para adolescentes, portanto, thumbs up para a autora. Mas existem também pontos que merecem ser discutidos.
De acordo com o que andei lendo, a comunidade leitora anglófona reconheceu Bianca como uma personagem feminista. Um texto muito interessante, no entanto, chamou a atenção para o fato do feminismo de Bianca se manifestar majoritariamente através de reprovação da conduta social dos outros adolescentes – inclusive suas amigas. Embora possamos dizer que a conduta tida como “normal” seja cheia de falhas (e de sexismo), desaprovar o fato de suas amigas descerem até o chão numa pista de dança não faz de você uma feminista. Concordei com o autor desse texto e, pessoalmente, apesar de ter gostado dos temas discutidos no livro, acho essa ressalva ao assumido feminismo da personagem principal uma observação válida.
No fim das contas, vale a pena ler The DUFF? Sim. É uma leitura agradável, rápida e apresenta uma mensagem positiva. Mas existem aspectos no enredo merecedores de reflexão, no que se refere a uma análise feminista da obra. É bom mantê-los em mente ao se acompanhar as aventuras de Bianca. 

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Esse livro da Caitlin Moran, que em português se chama “Como ser uma mulher”, é uma fantástica e engraçada obra sobre o feminismo, que visa não o público especializado, mas as pessoas comuns. A autora descreve episódios de sua vida e, cheia de humor, trata de temas pertinentes ao feminismo. Se você, por algum motivo, ainda não leu nenhuma obra feminista, terá nesse livro a introdução perfeita!
How to be a woman, by Caitlin Moran, is a feminist book aimed to a wider audience. The author uses some episodes of her life to treat feminist issues in a humorous and funny way. If you, for any reason, have not read a feminist book yet, this is a really good introduction!

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Nesse romance de formação a personagem principal, que tem o mesmo nome da autora, foi criada por uma mãe adotiva fanaticamente cristã e, ao descobrir sua homossexualidade na adolescência, vivencia um confronto entre sua preferência sexual e as crenças de sua mãe. Ao ler esse livro acompanhamos o crescimento de uma moça queer, bem como sua adaptação ao mundo e a construção de seu senso de self. Nos deparamos, assim, com temáticas pertinentes ao feminismo. Pode não ser uma leitura extremamente fácil, mas ler Laranjas Não São O Único Fruto é uma experiência rica. Existe uma tradução para o português de Portugal, porém não consegui encontrar uma tradução brasileira. No entanto, a Livraria Saraiva vende o livro importado e existe sempre a possibilidade de aquisição de e-books, para os interessados.

   
The premise of this book is really interesting: in Rome, on pre-Christian times, it was discovered that women came to existence before men. The first humans were female and they gave birth to other females only. Males came to existence afterwards, when babies with different apparatus simply started to be born.
The first tribe of women lived close to the sea and had a laid back existence, until the first men were born and made the world as it was known slowly change. The book follows this change and shows us how women started sacrificing what they called “monsters”, by abandoning the babies. Some of them, however, survived and managed to create a settlement. We also see the development of the relationship between both tribes. All this is told to us by the narrator, a Roman citizen, who is a historian and decided to tell the world about this discovery.
Personally, I am not so sure of what to think about this book. At first, I thought the idea was provoking and different, because it showed the beginning of humanity through a feminist view. But as the narrative continued I realised the author seems to think that the differences between men and women are natural aspects of both genders, and I do not agree with this idea.
I agree with the theories that say gender differences are, mainly, a social construction, therefore, this book trying to say the contrary kind of put me off. Doris Lessing depicts the first men (who were called Squirts) as adventurous, explorers and hunters, while women (called Clefts) were homey, nagged a lot and cared about their offspring. The differences between genders come from ancient times, according to this book. In my opinion, this just makes Lessing’s view of gender roles seem even more archaic and imprisoning.



I haven’t even finished this book yet, but am already pleased with the representation of women in it. Throughout the story we can see powerful sorceresses, female rulers, chiefs of cults and all sorts. The main character, for instance, is one of the five gods-chosen leaders of a religion and of a nation. Three of those leaders, by the way, are women. One of them has quite a liberal sexual life and, although not everybody approves of it, she goes on having sex with whoever she wants, which is cool. There might be some small details that one could say are sexist (one of the characters, for instance, needs to subtly convince a lad to invite her to a party, instead of inviting him herself), but they seem to be part of some cultures showed in the book, instead of a recurrent theme, and the characters that face such sexism find ways to fight or defy it. The fact that this book’s story is set in a medieval fantasy universe and the author chooses not to treat women as inferior to “add verisimilitude” to it speaks loads for itself. I’ve just read about half of it, so something else may come up and change my mind. I’ll let you guys know if such thing happens. But, so far, this book seems to portray a variety of interesting female characters. Maybe more POV characters could be female, but, as I said, I’m not done with it yet, so that may still happen.





Here’s another chick lit book that could do better to represent women. This one tells the story of a girl who starts working as a carer for a disabled young man. Since a motorbike accident, he can’t move from the chest down and has decided to kill himself. She tries to dissuade him of that idea and, in the process, he changes her life. She becomes a more cultured person who starts aiming to fly higher in life, just because of this young man. Before they met, she had a mediocre life and was happy to go on living it like that until the last day. But after the lad showed her what life could be and told her that something awful that happened in her life was not her fault, she changed. She learned how to be a better person, because of him. Did she change him? Nope. He didn’t have to be changed. He just needed to be there to show that women need men to tell them they’re worth it. Romantic, right? Sounds like the story of a modern damsel in distress. She said “Oh, gallant knight, save me from my life, please”. And he did. 




So, this is my first post, yay! And I’m gonna talk about P.S. I love you. A book (and movie) that made people cry and say love is beautiful. Or… Is it? We all know the story: a woman loses her husband to cancer and gets depressed, and starts receiving letters from her dead husband (previously written, no ghost stories here). Said letters help the widow overcome her grief. So, what’s wrong with that? The book’s main character, Holly, has her life completely dedicated to her husband, Gerry, even after his death. The dead guy guides her choices, telling her to find work, travel, go to parties… Even deciding what she wears! Thus we see the story of a woman entirely dependent on her husband, who only manages to overcome the depression caused by his loss because he helps her to do so. Without Gerry, Holly would have never survived Gerry’s death. While I believe that, on a personal level, each person should live life the way he/she wants, I find this kind of narrative worrying, because it spreads the message that women depend on men and that makes this idea to be seen as normal, maybe even expected. And that is not the reality, is it? Not all womem depend on men, thankfully. And we should not be expected to do so.